Piloto automático: o preço de nunca desligar
- amandaoliveiraspsi

- 14 de ago.
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de ago.
Nem toda força é escolha. Às vezes, é sobrevivência disfarçada de armadura.

Existe uma cena no filme Em uma Ilha Bem Distante em que Zeynep Altin, tarde da noite, anda de bicicleta e repete para si mesma: "mulher forte e independente". Isolada, essa cena poderia ser interpretada apenas como o desabafo de uma mulher exausta e embriagada, ecoando palavras que ouviu minutos atrás. Eu, porém, enxergo outra coisa.
Será que aquela frase era só um devaneio? Ou era uma forma de afirmar a si mesma algo que, no fundo, já não sentia mais? Será que repetir aquelas palavras tinha o objetivo de reforçar que precisava continuar sustentando a imagem de força e independência? Por aqui, não trabalho com "achômetro" — então prefiro ficar com a pergunta a entregar a resposta fácil.
Talvez Zeynep não estivesse tentando se encaixar. Talvez estivesse tentando dar um novo significado a "mulher forte e independente" — e, no meio do processo, tenha se perdido nele.
Sustentar a imagem de força o tempo todo tem um custo. Essa necessidade consome, aos poucos, quem a gente é por trás dela — e cria uma rotina de desgaste físico e mental em que operar no automático vira o único mecanismo de defesa possível. Zeynep mostra isso logo no início do filme: prepara o café da manhã, dita as ordens da família e ainda olha o relógio para que ninguém se atrase para o enterro da própria mãe. Mesmo no dia da sua maior tristeza, a armadura de mulher forte segue ali, intacta. O que não vemos é o quanto essa armadura sufoca as noites de sono dela.
A virada acontece quando ela recebe o diário da mãe. Ao ler, se depara com uma frase que dói: "Eu vejo você. Dia após dia, você se torna menos você mesma, menos livre, aqui neste meu mundinho seguro." Isso acontece só com Zeynep? Ou acontece com a gente também? Quantas pessoas estão repetindo padrões, vivendo uma vida menor, mais apertada e menos livre do que planejaram um dia?
Nós herdamos o hábito de sofrer, silenciar e trabalhar até o esgotamento por meio de um processo invisível chamado transmissão transgeracional. Zeynep cresceu vendo uma família que priorizava a segurança acima de tudo, lidando com traumas de escassez e migração. Aprendeu, cedo, que para sobreviver bastava se encaixar e aceitar o que vinha.
Foi dentro dessas paredes estreitas que ela viveu 49 anos, se ajustando a elas. E sabe o que isso significa? Que o modo sobrevivência foi ativado por tempo demais — e a mente, nesses casos, costuma adotar o congelamento ou a apatia como defesa. É assim que o piloto automático se fortalece: não como falta de força de vontade, mas como sintoma de um sistema inteiro — mente, corpo e ambiente — em colapso.
Zeynep viveu uma autossuficiência tão rígida que criou muros. Eles a protegeram, mas também a aprisionaram. Precisou ir para uma ilha distante, respirar outro contexto, se conectar com outras pessoas, para lembrar que sua existência também depende do outro — o sentido do Ubuntu: "eu sou porque nós somos". Talvez seja preciso quebrar as paredes para que a luz entre e nutra as raízes. Afinal, ninguém se cura isolado numa ilha.
Reconhecer o encolhimento do próprio mundo é o primeiro passo para expandi-lo — às vezes com uma pausa, uma respiração, um apoio terapêutico. Mas antes disso, fica a pergunta: quantas paredes você já confundiu com proteção, sem perceber que também eram uma prisão?
Assista ao Cena Terapêutica e veja a história da Zeynep sob outra perspectiva. Você pode se identificar.




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