A parte de nós que fica para depois
- amandaoliveiraspsi

- 21 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de ago.
Às vezes, não é uma nova vida que nos falta. É apenas a coragem de dar espaço à parte de nós que ficou para depois.

Existe uma cena no filme Dança Comigo, em que John está no metrô e, mais uma vez, avista, pela janela, uma escola de dança. E lá se encontra uma bela mulher com um olhar distante que chama sua atenção. Dessa vez, ele resolve descer do metrô e ir até a escola. Ao chegar, titubeia algumas vezes e se pergunta se deve ou não entrar. Essa cena pode ser interpretada como um homem seguindo seus instintos em busca de uma mulher que despertou seu interesse. Eu, porém, enxergo outra coisa.
O que aquela decisão realmente representava? Será que ele estava indo atrás daquela mulher? Será que o que queria era ficar mais tempo longe de casa? Será que todo aquele contexto apenas despertou algo que já existia dentro dele? São muitos os “será que” e vale muito a pena sair do “achômetro”.
Talvez John não estivesse procurando uma nova vida. Talvez estivesse tentando reencontrar uma parte de si que havia ficado para trás.
Isso acontece só com John? Ou acontece conosco também? Quantas pessoas estão vivendo "dentro do que é esperado" e, aos poucos, deixam de existir para si mesmas? E então em que momento cumprir todas as responsabilidades passou a ser sinônimo de estar vivendo? John tinha uma vida considerada feliz: carreira, uma esposa que o amava, filhos e uma bela casa. Mas por que será que não havia brilho em seus olhos?
A primeira vontade que deu em John ao entrar na escola de dança foi de fugir, seguida de vergonha, medo do julgamento, uma necessidade enorme de esconder isso de sua família e a descoberta ou a certeza de que não sabia dançar, mas ele não desistiu. O que exatamente o fez ficar? Se olharmos de forma rasa podemos ver apenas alguém fora de contexto ou querendo fugir de sua realidade, mas se olharmos de forma profunda podemos compreender que todo comportamento é uma resposta emocional ao vazio que estava sentindo.
As pessoas costumam imaginar que mudar pressupõe destruir. Destruir quem acreditamos ser, carreira, relações, estilo de vida, etc. Mas a psicologia mostra outra possibilidade. John se permite sentir a música e assim movimentar seu corpo, se desafiar frente a passos até então inimagináveis, fazer amizades diferentes e sorrir, isso sem abandonar as pessoas e coisas que compõem sua vida. O que ele está fazendo é experimentar algo novo, ampliar repertório e aprender. Na psicologia, esse movimento de experimentar o novo, ampliar o repertório e aprender é conhecido como comportamento exploratório. Perceba ainda que John não deixou de ser marido, pai ou pediu demissão - ele apenas foi dançar.
Todos nós temos coisas que são importantes e que nos dão vida, porém deixamos de lado para dar espaço a viver “dentro do esperado” e aos poucos aquilo que nos dava a sensação de que a vida valia a pena vai se apagando. Fazemos isso acreditando que estamos escolhendo o melhor.
Acreditamos que o que importa ou que o nosso valor está atrelado à carreira, ao dinheiro e à família e então acabamos nos deixando para depois. Com o passar do tempo ficamos anestesiados, vivendo no automático e em seguida se inicia uma sensação de vazio - o sofrimento. Esse vazio que, se não olhado diretamente, pode ser confundido com falta do que fazer. Perceba que “vazio” fala sobre “Ser”, que aquelas coisas que nos davam vida também falam a mesma coisa, porém o que normalmente inserimos como justificativa fala sobre o “Ter” e/ou o “Fazer”.
Tenho certeza de que isso aparece com muita naturalidade no cotidiano da maioria das pessoas, tenho certeza de que o tempo que dedicamos para o “Ter” e o “Fazer” é imensamente maior do que o tempo dedicado ao “Ser”. E é exatamente nesse lugar que estão as respostas que procuramos. John achou isso na dança e você onde acha espaço para “Ser”?
Assista ao Cena Terapêutica.




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