Desconexão de si: quando o medo nos impede de viver
- amandaoliveiraspsi

- 27 de ago.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Uma reflexão a partir de A Vida Secreta de Walter Mitty sobre medo, fantasia, identidade e reconexão consigo.

Existe um momento em A Vida Secreta de Walter Mitty em que ele simplesmente... some. No meio do escritório, encarando um corredor, o olhar de Walter Mitty trava e ele desaparece de onde está — enquanto os colegas, ao redor, jogam clipes de papel nele até ele "voltar".
A leitura mais fácil é achar que ele é só um cara esquisito, meio viajante, com a cabeça em outro lugar. Eu, porém, enxergo outra coisa.
Será que ele é apenas esquisito? Será que esses apagões são fugas da realidade? Ou é apenas um cara medroso?
São muitos os "e se" e você já sabe que por aqui eu não gosto de "achômetros". Então, vou compartilhar o que eu vejo.
Mas, antes: será que só o Walter foge da realidade, ou nós também fazemos isso? Quantas vezes nos imaginamos em situações ou cenários diferentes daqueles que vivemos, nos quais, por alguns instantes, ficamos "fora do ar".
E ficar "fora do ar", nesse caso, não precisa significar necessariamente algo patológico. Fantasiar faz parte da experiência humana. Podemos imaginar conversas que nunca aconteceram, pensar em como seria uma vida diferente, criar mentalmente situações que gostaríamos de viver ou até ensaiar aquilo que gostaríamos de dizer. Ou seja, as fantasias podem expressar desejos, necessidades e possibilidades que ainda não encontramos uma forma de acessar concretamente.
E talvez seja justamente por isso que Walter é interessante. Porque, se olharmos com um pouco mais de atenção para aquilo que ele imagina, podemos perceber que suas fantasias não aparecem do nada, sempre tem um contexto.
Ele se imagina corajoso, desejado, admirado. Se imagina vivendo aventuras. Se imagina fazendo aquilo que, na vida real, parece não conseguir fazer.
Então talvez a pergunta não seja apenas: "Por que Walter fantasia tanto?”
Talvez seja: "O que a fantasia está tentando dizer sobre a vida que ele não consegue viver?"
E aqui a Psicologia me oferece uma lente interessante. Existe um conceito chamado evitação experiencial — a tendência de evitar o contato com pensamentos, emoções e situações desconfortáveis, mesmo quando essa fuga custa caro. E imaginar é, muitas vezes, mais seguro do que experimentar.
Porque imaginar não exige exposição. Na imaginação, podemos ser quem quisermos. Não existe o olhar do outro. Não existe o risco de fracassar. Não existe a possibilidade de ouvir um "não".
Já na vida real, existe.
E é justamente por isso que o medo pode ser tão eficiente em nos manter parados. Ele não precisa dizer "não faça". Às vezes, ele só precisa dizer: "Talvez depois."
Depois eu tento.
Depois eu falo.
Depois eu viajo.
Depois eu mudo.
Depois eu começo.
E, quando percebemos, passamos tanto tempo esperando o momento certo que a vida vai acontecendo sem a nossa participação.
Walter não parece alguém sem desejos. Pelo contrário. Talvez o que falte, durante boa parte da história, seja espaço para que esses desejos ganhem vida fora dele.
E isso nos leva para fora da tela.
Porque talvez você não tenha apagões como Walter. Talvez não passe horas imaginando aventuras ou vivendo histórias inteiras dentro da cabeça. Mas pode existir outra forma de desconexão.
Aquela em que você cumpre tudo o que precisa cumprir, responde às mensagens, trabalha, cuida da casa, cuida dos outros, resolve problemas... E, ainda assim, em algum momento, percebe que não sabe muito bem onde você está no meio de tudo isso.
Você está fazendo. Mas está sendo?
Essa diferença parece pequena. Mas não é.
Na forma como eu enxergo isso, ser, ter e fazer representam formas diferentes de nos relacionarmos com a vida. E quando o fazer ocupa todo o espaço, pode acontecer de perdermos contato justamente com aquilo que nos dá direção: quem somos, o que sentimos, o que desejamos.
Talvez seja por isso que algumas pessoas só percebam que estão desconectadas de si quando alguma coisa quebra a rotina.
Uma perda.Uma mudança.Um aniversário.Uma doença na família.Uma demissão.Um relacionamento que termina.
Ou simplesmente aquele dia em que você olha para a própria vida e pensa: "Como eu cheguei até aqui?"
Não significa que tudo precisa ser abandonado. Aliás, talvez a reconexão não tenha nada a ver com destruir a vida que construímos. Talvez tenha mais a ver com acrescentar aquilo que foi ficando de fora.
Uma conversa que você vem adiando. Um interesse que deixou de existir porque "não dá tempo". Um encontro. Um passeio. Uma escolha pequena que ninguém está esperando que você faça. Uma experiência que não precisa provar nada para ninguém.
Porque talvez o movimento contrário à desconexão não seja uma grande transformação. Talvez seja uma pequena aproximação.
Aproximar-se novamente de si. Do que sente. Do que deseja. Do que teme. E também daquilo que, em algum momento, você deixou de imaginar possível.
No fundo, talvez Walter não precise deixar de sonhar. Talvez precise apenas descobrir o que seus sonhos estão tentando lhe contar.
E nós? Quando passamos tanto tempo imaginando uma vida diferente, talvez valha a pena olhar com cuidado para essas imagens. Não para fugir para elas. Mas para perguntar o que existe ali que está faltando aqui.
O que a vida que você imagina está tentando lhe contar sobre a vida que você está vivendo? Assista ao Cena Terapêutica e veja a história da Walter Mitt sob outra perspectiva. Você pode se identificar.




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